rimes.
Tinha vindo para ali livremente, e assim poderia partir... até
dizer as palavras. Só precisava avançar, e deixaria tudo para
trás. Quando a lua cheia voltasse, estaria de novo em
Winterfell com os irmãos.
Com os meios-irmãos, lembrou-lhe uma voz interior. E com
a Senhora Stark, que não te dará as boas-vindas,
Não havia lugar para ele em Winterfell, e também não o
havia em Porto Real. Nem sequer a própria mãe tivera lugar
para ele. Pensar nela o deixou triste. Quis saber quem ela era,
qual o seu aspecto, por que motivo o pai a abandonara.
Porque era uma prost ituta ou uma adúltera,
palerma. Qualquer coisa escura e desonrosa, caso
contrár io, por que ter ia Lorde Stark tanta
vergonha de falar dela?
Jon Snow virou as costas à Estrada do Rei para olhar para
trás. Os fogos de Castelo Negro estavam escondidos por detrás
de uma colina, mas via-se a Muralha, clara sob a lua, vasta e
fria, correndo de horizonte a horizonte.
Fez o cavalo dar meia-volta e dirigiu-se para casa.
Fantasma regressou no momento em que ultrapassava uma
elevação e via o distante brilho de uma lamparina na Torre do
Senhor Comandante. Enquanto o lobo gigante trotava ao
lado do cavalo, viu que tinha o focinho vermelho de sangue.
Depois, deu por si pensando de novo em Samwell Tarly. Ao
chegar aos estábulos, já sabia o que devia fazer.
Os aposentos de Meistre Aemon ficavam numa sólida torre de
madeira sob o viveiro dos corvos. Idoso e frágil, ele partilhava
a habitação com dois dos intendentes mais novos, que
atendiam às suas necessidades e o ajudavam a desempenhar
seus deveres. Os irmãos gracejavam, dizendo que lhe tinham
sido atribuídos os dois homens mais feios da Patrulha da
Noite; como era cego, era poupado de ter de olhar para eles.
Clydas era baixo, calvo e sem queixo, com pequenos olhos
cor-de-rosa como uma toupeira. Chett tinha um quisto no
pescoço do tamanho de um ovo de pombo, e uma cara
vermelha com furúnculos e espinhas. Talvez fosse por isso que
parecia sempre tão zangado.
Foi Chett quem respondeu ao toque de Jon.
- Preciso falar com Meistre Aemon - disse-lhe Jon.
- O meistre está na cama, tal como você devia estar. Volta de
manhã e ele talvez o receba - e começou a fechar a porta.
Jon pôs a bota na soleira, mantendo-a aberta.
- Preciso falar com ele agora. De manhã será tarde demais.
Chett franziu as sobrancelhas.
- O meistre não está habituado a ser acordado durante a
noite. Sabe que idade ele tem?
- Idade suficiente para tratar os visitantes com mais educação
do que você - disse Jon. - Transmita-lhe as minhas desculpas.
Não perturbaria seu descanso se não fosse importante.
- E se eu recusar?
Jon tinha a bota solidamente apoiada contra a porta.
- Posso ficar aqui a noite inteira se for preciso.
O irmão negro fez um som de repugnância e abriu a porta
para deixá-lo entrar.
- Espere na biblioteca. Há lenha. Acenda o fogo. Não quero
que o meistre apanhe um resfriado por sua causa.
Jon já tinha a lenha estalando animadamente quando Chett
fez entrar Meistre Aemon. O velho vinha vestido com seu
roupão de cama, mas em torno da garganta trazia o colar de
correntes da sua Ordem. Um meistre não o tirava nem mesmo
para dormir.
- A cadeira junto ao fogo seria agradável - disse ao sentir o
calor na face. Depois de estar confortavelmente instalado,
Chett cobriu-lhe as pernas com uma pele e foi para junto da
porta.
- Lamento tê-lo acordado, meistre - disse Jon Snow.
- Não me acordou - respondeu Meistre Aemon. - Descobri que
fui necessitando de menos sono à medida que fui
envelhecendo, e já envelheci muito. É frequente passar
metade da noite na companhia de fantasmas, recordando
tempos idos há cinquenta anos como se tivessem sido ontem.
O mistério de um visitante da meia-noite é uma diversão
bem-vinda. Por isso, diga-me, Jon Snow, por que veio falar
comigo a esta estranha hora?
- Para pedir que Samwell Tarly seja tirado dos treinos e
admitido como irmão da Patrulha da Noite.
- Isto não diz respeito ao Meistre Aemon - Chett protestou.
- Nosso Senhor Comandante pôs o treino dos recrutas nas
mãos de Sor Alliser Thorne -disse o meistre com gentileza. -
Só ele pode dizer quando um rapaz está pronto para fazer
seus votos, como seguramente você já sabe. Por que então
veio me procurar?
- O Senhor Comandante escuta o que o senhor tem a dizer -
disse-lhe Jon. - E os feridos e doentes da Patrulha da Noite
estão a seu cargo.
- E está o seu amigo Samwell ferido ou doente?
- Ficará - garantiu Jon - a menos que o ajude.
E contou-lhe tudo, até a parte quando incitara Fantasma à
garganta de Rast. Meistre Aemon escutou em silêncio, de
olhos cegos fitos no fogo, mas o rosto de Chett foi se fechando
a cada palavra.
- Sem nós para mantê-lo em segurança, Sam não terá
nenhuma chance - Jon terminou. -Ele é absolutamente
incapaz com uma espada na mão. Minha irmã Arya poderia
desfazê-lo, e ela sequer tem dez anos. Se Sor Alliser o fizer
lutar, é só questão de tempo até ser ferido ou morto.
Chett não aguentou mais.
-Já vi esse rapaz gordo na sala comum - disse. - Ele